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JL MARTINNS - Machado de Assis: A Igreja do diabo

A Igreja do Diabo
Li, nesta semana, um conto de Machado de Assis que me assustou pela atualidade. Nome do conto: A Igreja do Diabo. É impressionante como brotam as igrejas por toda parte. São como cogumelos em mata úmida. Foi descoberto um novo filão para se ganhar dinheiro à custa da simplicidade e credulidade infantil do povo simples. Descobriram um deus que rodopia ao redor do dízimo igual mosca atraido por carne deteriorada. Até nos levam a pensar que Machado de Assis estava navegando numa onda profética.

Conto: Machado de Assis
Conta-nos Machado que, num velho mosteiro, um monge beneditino descobriu que o Diabo tinha resolvido fundar uma igreja. Todos nós sabemos que o diabo acredita em Deus. Não que ele tenha fé, pois ter fé é outra história, envolve um compromisso com um Projeto de Vida, de uma Caminhada de Salvação. A missão do Diabo é botar pedras no nosso caminho e mostrar que há outros caminhos mais fáceis, com muita Coca-Cola e chocolate, uma estrada sem sofrimento, sem dor, sem cruz. Tudo no macio. Nesse ponto, até que ele foi sincero. Foi à procura de Deus e expôs seu novo plano. Iria fazer concorrência de um modo mais fácil. Os sete pecados capitais seriam transformados em virtudes. Luxúria, Preguiça, Avareza, Ira, Gula, Inveja, Soberba, seriam o ideal de vida. Teria mais um sentido de empresa lucrativa e competitiva. “Uma igreja, disse o Diabo, com liberdade total, com uísque à vontade, sem pecado, sem mandamentos, livre de qualquer opressão do poder.” E, rápido, batendo suas asas negras, retirou-se. Voltando à terra, não perdeu um minuto. Vestiu um hábito de monge. Não sei se ele se auto-proclamou bispo, mas iniciou logo a sua pregação. Prometeu a seus discípulos todas as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. “Sou o vosso verdadeiro pai”, proclamava. “Eu vos darei tudo, tudo, tudo”. Ensinou a não perdoar, aconselhou a calúnia, ensinou a cortar toda a solidariedade humana, a fazer do lucro o supremo ideal da vida. Não prometia um lote no céu, mas um bem-estar de vida aqui mesmo na terra. O importante é o “agora”, não as ilusões do futuro. E foi por aí afora.
Bem, quando tiver oportunidade, leia o conto de Machado de Assis. É uma obra-prima. Uma profecia do mais fino primor.

Conto essa estória porque está havendo uma banalização crescente da religião nos últimos tempos. Não existe uma rua onde não haja uma portinha e alguém lá dentro, de Bíblia na mão, prometendo prosperidade na base do “quanto mais você der, mais você recebe”. Sem falar no “descarrego”, geralmente feito aos gritos, como se o Diabo fosse surdo. E os pobres se despojando do que têm e do que não têm para sair da pobreza em que vivem.

Muito antes de Machado, um homem chamado Jesus já sabia de toda essa pilantragem: “Se alguém disser a vocês: ‘Olha o Messias aqui! ou ali!’, não acreditem. Pois hão de surgir falsos Messias e falsos profetas, que apresentarão grandes sinais de modo a enganar, se possível, até mesmo os eleitos”.

Fonte: thprata@terra.com.br
Bay, Jeff

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